As casas em um formato diferente chamam a atenção de quem passa. No meio da Floresta Amazônica, uma cidade inteira foi construída por Henry Ford no período da borracha na década de 1930: Belterra.
Visionário para a época, Henry Ford nunca pisou em Belterra, a cidade que construiu. Hoje, a união de tecnologia e ancestralidade voltam a impulsionar negócios nesse pedaço da Amazônia.
O Muca (Museu de Ciência da Amazônia) vai abrigar o maior banco genético vivo do planeta, além de um laboratório avançado de selva, como explica o coordenador educacional do museu, Artur Carvalho:
“Diferente dos museus convencionais que a gente é acostumado a ver pelo mundo afora, nossas coleções e os nossos trabalhos são mais voltados para a parte da ciência amazônica. É um laboratório que, ao mesmo tempo que ele tem tecnologias para desenvolver novos produtos, como são os casos dos cosméticos, está muito próximo das comunidades e de onde vêm os insumos para a produção desses cosméticos.”
Uma ideia que saiu dos bancos da universidade e hoje virou produto: foi assim que a farmacêutica Melissa Karen Lage criou a Mahah Cosméticos:
“Foi a partir de uma apresentação que eu descobri que na universidade tinha professoras que trabalhavam com cosméticos e com produtos da biodiversidade amazônica. Eu pedi para poder entrar no laboratório e a professora me aceitou. Inicialmente eu comecei querendo fazer um produto para cabelo cacheado, mas que utilizava babosa, não era amazônico. Depois de um tempo, as orientadoras deram a ideia de fazer utilizando produtos da região. São todos produtos biodegradáveis, então você pode banhar com esses produtos no rio, na cachoeira, no mar. O ativo principal, que é o nosso óleo, né, e para os condicionadores também utilizamos manteigas, são todos do Pará.”
Como que é para você trabalhar com produtos que vêm do estado que você nasceu, de uma região de valorização desses produtos que você tem mostrado para a gente?
“É uma alegria, assim. Porque, geralmente, eu cresci muito com a visão de que para conseguir coisas interessantes ou fazer coisas interessantes teria que ir para fora ou vir coisas de outros estados. E hoje poder saber que tem todas essas matérias-primas, poder valorizar isso, ter contato com as comunidades e utilizar isso para o meu negócio… é muito gratificante poder utilizar as coisas daqui e poder estar em contato com as pessoas que produzem também, principalmente esses óleos.”
E também mostrar para fora.
“Isso. Porque acredito que as pessoas, algumas pessoas acham que as coisas da Amazônia é muito assim ainda artesanal. E tem, e tem o seu valor, mas também tem a parte científica, né? Nós estamos na universidade, produzimos com todo um critério científico, mas também com as coisas da comunidade, do território, né, com os produtos do território.”
Valorizar os conhecimentos tradicionais e usar tecnologia e ciência: uma união que potencializa projetos como o de Melissa, como explica a professora de economia da FEA-USP, Maria Sylvia Saes:
“São ações em que, se você une o saber tradicional com a ciência… E a ciência para quê? Para ter uma rastreabilidade, para o produtor compartilhar valor adequado, né, não ser simplesmente tirar o valor dele e ser colocado no mercado com valor alto e ele não receber esse valor, né? Então todos esses exemplos vão levando a gente ver que tem sim solução. Só que é uma transição. É uma transição que está saindo de nichos pequenos para o que a gente chama de regime, né? Mudar o regime de exploração, de forma de que atua a cadeia de valor.”
A matéria-prima para alguns dos produtos da Melissa vem de uma comunidade a 70 km dali. No coração da Floresta Nacional do Tapajós estão as Amélias da Amazônia. Elas fazem parte do projeto Iconografia Local Bioma Amazônico, uma iniciativa do Sebrae. O objetivo é incentivar e valorizar negócios amazônicos a partir do território e da cultura tradicional.
Marileide Dias da Silva é uma das Amélias e aprendeu na família desde cedo a extrair o óleo de andiroba.
Como é que surgiu a ideia de vocês fazerem as Amélias?
“Através de quatro irmãs, né? Porque a gente via que essa semente de andiroba… Algumas famílias tiravam para fazer seus próprios remédios, né? Parte da semente, ela se perdia, eram queimadas, jogadas para o mato. Decidimos trabalhar no processo para tirar o óleo da andiroba. Através disso que surgiu as Amélias da Amazônia. Foi no ano de 2016, aí em 2018 a gente conseguiu legalizar a nossa associação.”
Para virar óleo, o processo é longo. As sementes de andiroba ficam algumas horas no fogo. Mexe daqui, mexe dali, sob o sol escaldante e o calor paraense. E depois de cozinhar a andiroba, é preciso fazer manualmente o processo de retirada da polpa.
No dia em que conhecemos as Amélias, foram cozidos 127 kg de semente, que vão virar alguns litros de óleo e produtos como xampus e sabonetes.
A bioeconomia na Amazônia Legal gera atualmente um PIB de mais de 12 bilhões de reais por ano. São 347 mil empregos, 84 mil trabalhadores formais. Empregos diretos e indiretos como os gerados pelas Amélias, que agora crescem e diversificam o negócio. Uma vitória para Marileide, que acreditou desde sempre no potencial gerado por este grupo de mulheres no coração da Amazônia:
“Se nós estamos conseguindo, já estamos num grau mais alto, é porque nós nunca desistimos disso. Porque a gente acreditou que um dia, né, a gente ia conseguir algo melhor para a gente, com a nossa família.”
E conseguiram.
“Conseguimos.”
*Reportagem: Ana Graziela Aguiar
Produção: Acácio Barros
Sonoplastia: Egiberto Martins





























